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Apesar do meu vocabulário - considerado culto para a Internet e coloquial para um livro culto - procuro sempre o âmago da questão. Detesto ficar enrolando, e, conseqüentemente, ser enrolado com palavras vazias. Daí que não me agradam os caminhos que a "evolução da espiritualidade" está tomando nos dias de hoje. Se numa determinada época era preciso velar os ensinamentos com o manto da retórica e simbologia (ou através do uso de uma língua morta, como fez a Igreja Católica), hoje em dia isso não é mais preciso. Então porque dar novos nomes aos velhos mestres, práticas, conceitos, como se isso fosse alguma novidade? E o pior, isso não torna o aprendizado mais fácil! Dizer que Jesus agora é Sananda, ou que Buda agora é Priscila - a Rainha do deserto - não vai nos tornar pessoas melhores, nem vai incutir em nossa mente nenhum valor transcendental!
Ou então preferem revestir os ensinamentos de magia, como se já não existisse magia suficiente no mundo: quando olhamos o universo infinito e nos perguntamos o que ou quem mantém aquilo tudo.
"Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de contradições; respira a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a moral mais pura; é concisa e sem palavras inúteis. Nos Espíritos inferiores, ignorantes, ou orgulhosos, o vazio das idéias é quase sempre compensado pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de malevolência, de presunção ou de arrogância, são sinais incontestáveis de inferioridade num Espírito"
(Allan Kardec)
Uma coisa que me atrai muito ao Budismo é a sua aplicabilidade. Buda teve uma meta clara, e lutou arduamente por ela: acabar com o ciclo de sofrimento (Samsara). Abandonou riqueza, família, até mesmo o próprio ego, e quando ele se "perdeu", finalmente se encontrou.
É por espinhos e não por fantásticos caminhos que o Homem chegará aos pés de Deus
(Irmão Bernando)
Buda não estava interessado em conhecer Deus, anjos, demônios, e sim a ele mesmo. Sabia que,encontrando a si,encontraria a resposta para tudo mais. Não ansiava conquistar poderes (Siddhis) e, ainda assim, conquistou-os todos, pois o que chamamos de "poderes" são uma conseqüência natural do desenvolvimento mental e espiritual. Um Buda (um Avatar, assim como Jesus) está acima das limitações humanas, porque já não É um ser de carne e osso: ele ESTÁ um ser de carne e osso.
O físico Fritjof Capra, em seu livro O Tao da Física, nos fala que o budismo - ao contrário do hinduísmo, que lhe serviu de preparação e que possui um forte colorido mitológico e ritualístico - tem um caráter e um "sabor" eminentemente psicológicos. Segundo Capra, "Buda não estava interessado em satisfazer a curiosidade humana acerca da origem do mundo, da natureza do Divino ou questões desse gênero. Ele estava preocupado exclusivamente com a situação humana, com o sofrimento e frustrações dos seres humanos. Sua doutrina, portanto, não era metafísica; era uma psicoterapia. Buda indicava a origem das frustrações humanas e a forma de superá-las."
O problema com os "buscadores" atuais é que eles procuram desenvolver os aspectos físicos (Siddhis) e mentais (conhecimento = poder) esquecendo o aspecto moral. Ignorando por completo que o que eles receberam obedece a uma finalidade (ver a parábola dos talentos). Não se dão conta de que são uma engrenagem do universo, cada qual uma peça pequena, mas igualmente importante para o bom funcionamento do Todo. Muitos usam o conhecimento pra manipular pessoas, às vezes até com uma boa intenção (infelizmente já fiz isso), mas esquecem do livre arbítrio, que é uma lei universal, e como tal DEVE ser respeitada.
Outras vezes resolvem ganhar dinheiro, utilizando-se de incautos, que ficam fascinados com os "fogos de artifício" e esquecem do motivo da "comemoração".
De nada adianta ter um profundo conhecimento se ele não serve ao próximo. Enfim, deixo a palavra final com meus dois grandes mestres:
A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!
(Mateus 6:22-23)